Olá pessoal, quanto tempo!
Hoje faz duas semanas que criei este blog, e infelizmente não consegui
alimentar ele como eu gostaria, desde que voltei para São Paulo ainda não
consegui colocar minha vida em ordem, são tantas burocracias para serem
resolvidas e o ritmo dessa cidade deixa a gente pirada.
Sinto que não estou me readaptando totalmente a essa volta.
O estilo de vida que a gente leva nessa cidade é insano. Tem hora que da
vontade de sair correndo por aí, sem rumo, gritando loucamente. As vezes sou
invadida por um sentimento de tristeza e desanimo, por não conseguir dar conta
de tantas cobranças que esse ritmo de vida nos impõe.
Por isso tantas pessoas estão ficando doentes emocionalmente. Não é de se
estranhar você encontrar com amigos que estejam vivendo a mesma situação.
Estamos todos no mesmo barco desnorteado e sem direção, prestes a afundar. Pelo
estilo de vida, pelas cobranças, pela situação política que se encontra o país
e mais ainda pela falta de atitude nossa perante a tudo isso. Estamos inertes e
não sabemos como sair disso.
Quero muito poder escrever e aprofundar sobre essa questão. A todxs as minhas
amigas e amigos que estão passando por essa situação, como eu, receba um abraço
caloroso de “tamo junto”. Quem quiser bater um papo mais profundo, pode me chamar
no inbox. É noix.
Mas hoje eu gostaria de falar um pouco mais sobre outro assunto:
Sobre o estado do Acre. Nessa semana recebemos a notícia do reaparecimento do
tão falado "menino do Acre", e com ela, como não poderia faltar nesse
Brazilzão, os famosos memes.
Alguns desses memes estavam mesmo divertidíssimos (Eu amo a internet e a
criatividade do brasileiro!), mas vi alguns que faziam referências negativas ao
Acre, como um estado que não pertence a nada, no fim do mundo, fora do mapa, invisível.
Realmente eu entendo que não tivemos uma educação que tenha nos ensinado sobre
a história e cultura de cada lugar desse extenso país, por isso alguns lugares possam
parecer invisíveis aos nossos olhos, mas eles existem sim, e o Acre tem muito
mais história e cultura do que a gente imagina.
Vou contar um pouquinho da história do estado pra vocês.
Durante a colonização, o atual estado do Acre passou a fazer
parte da América espanhola, de acordo com os tratados entre espanhóis e
portugueses. Após a independência das colônias espanholas, o Brasil reconheceu
aquela área como boliviana através do tratado de Ayacucho (1867). Porém, não
havia nenhuma ocupação do território por parte da Bolívia, em parte por ser uma
região de difícil acesso por outro caminho que não a bacia do Rio Amazonas. Em
virtude da abundancia da seringueira e do ciclo da borracha que estava se
iniciando, colonos brasileiros e muitos nordestinos, fugindo da terrível seca
que tomou conta do nordeste, tinham iniciado a ocupação do Acre em 1852, tendo
essa imigração atingido proporções muito grandes a partir de 1877. O governo
boliviano foi informado sobre essa ocupação de Puerto Alonso, que mais tarde foi
nomeado para Porto Acre, e após algumas disputas territoriais conflituosas, o
Brasil e a Bolívia começaram os tratados diplomáticos, iniciados e praticamente
forçados pelo ministro do exterior, o Barão do Rio Branco.
Em 1903, os países assinam o tratado de Petrópolis, onde a Bolívia
abriria mão de todo o Acre em troca de territórios brasileiros do Estado do
Mato Grosso, mais o pagamento de 2 milhões de libras esterlinas e a construção
da ferrovia Madeira-Mamoré, com o objetivo de permitir o escoamento da produção
da borracha.
Logo após a anexação do Acre ao Brasil, os acreanos esperavam pela sua elevação
a Estado o mais rápido possível, uma vez que nessa época (Auge do Ciclo da
Borracha) o Acre representava 1/3 do PIB
brasileiro. Porém após diversas tentativas e revoltas de movimentos autonomistas
que foram sufocados pelo governo brasileiro, o Acre só foi elevado a condição de
estado em 1962 durante a fase parlamentarista do presidente João Goulart.
Embora a região do Acre não estivesse sido ocupada por bolivianos naquela época,
é importante mencionar que na segunda
metade do século XIX, viviam cerca de 150 mil índios, distribuídos em 50
povos só no território acreano.
Em 1989, o numero de índios havia caído
para de cerca de 5 mil. No ano de 2001, a FUNAI notificou a existência de
10.478 índios em todo estado do Acre, distribuídos em 12 povos. Esse pequeno aumento
pode ser explicado pela atuação de organizações indigenistas.
As causas da diminuição demográfica indígena se dão pelos diversos conflitos e
assassinatos cometidos pelos seringalistas brasileiros, pelos coletores de “drogas
do sertão” (produtos típicos da região: cacau, castanha, ervas aromáticas e
plantas medicinais), pelos caucheiros peruanos e soldados bolivianos. Além das
doenças transmitidas pelo homem branco, em que o índio não tinha nenhuma resistência
física para essas enfermidades, e assassinatos cometidos por capangas de
fazendeiros a partir dos anos 70. Os caucheiros eram nômades, por isso se constituíram
num dos principais inimigos dos indígenas, já que eram impelidos a desbravação
contínua de novos territórios. As “correrias” eram organizadas por
seringalistas que reuniam até 50 homens armados para atacarem as aldeias,
matavam os líderes, escravizavam vários índios e cooptavam as índias para
servirem de mulheres no seringal.
Entre os órgãos indigenistas mencionados, existe a FUNAI (Fundação Nacional do
Índio) que foi criada em 1967 e instalada no Acre em 1976, com o objetivo de
prestar assistência as comunidades indígenas, vitimas das empresas agropecuárias.
Durante muitos anos, a FUNAI limitou-se a delimitar terras indígenas, ao invés
de demarca-las. Atualmente no Acre existem 17 terras indígenas esperando por
demarcação. A assistência médica aos índios também ainda é muito precária. Atualmente
a política da FUNAI é de que não sejam feitos contatos com os índios isolados,
apenas os localizando e delimitando a área na qual vivem para impedir a entrada
de brancos.
Outros órgãos foram criados para subsidiar a luta indígena como a Comissão Pró-índio
(CPI/AC), Conselho de Missão entre Índios (COMIN), o Centro de Trabalho Indigenista
(CTI), a União das Nações Indígenas do Acre (UNI), o Conselho Indigenista Missionário
(CIMI) e em 2000 foi criada a Organização dos professores indígenas o Acre
(OPIA) com o objetivo de promover a educação escolar indígena de forma
diferenciada.
Existem outros movimentos e organizações indigenistas atualmente que você pode
encontrar nesse link: pib.socioambiental.org
Embora existam esses movimentos e organizações de orientação
e auxilio as questões indígenas, ainda é muito pouco comparado as ações que
necessitam ser feitas nas aldeias e comunidades. E esse é um ponto que me tocou
muito durante o tempo que passei por lá. Existem muitas consequências
desastrosas de toda essa história de conflitos territoriais e do contato brusco
com o homem branco.
Eu fiz alguns registros com imagens e vídeos das dificuldades que encontramos
nas aldeias que tivemos a oportunidade de conhecer. Eu gostaria muito de
compartilhar com vocês essas questões e quem se sentir tocado como eu, que
possa ajudar de alguma maneira. Esses são pontos que quero aprofundar mais pra
frente, com calma e de forma detalhada.
Eu contei um pouco da história do Acre, para compreendermos
a importância que esse lugar tem na história do nosso país. Como seu território
foi explorado e seu povo abandonado pelo governo. Os diversos conflitos que
sucederam no Acre, foram incitados pela própria política econômica brasileira
de extração da borracha e seu interesse em dizimar as comunidades indígenas.
Não tem problema fazer memes com o “menino do acre”, até
porque ele pediu e com certeza agora esta morrendo de rir com a grana que ele ganhou
nessa brincadeira, mas parem de ofender o povo acreano, que tem muito para nos
ensinar e merece ser lembrado pelas suas raízes históricas, sua cultura e
tradição.
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